Anticoncepção e abortos ocultos

Muitas mulheres recorrem à anti-concepção hormonal. Fazem-no pensando que este método (especialmente os vários tipos de pílulas anticoncepcionais) impede qualquer possível concepção, não deixando espaço para que se inicie uma gravidez.

Entretanto, alguns estudos mostraram que muitos sistemas anticoncepcionais não são capazes de impedir uma concepção. Observou-se, por exemplo, que as hormonas que a pílula (ou alguns implantes ou injecções anticoncepcionais) faz circular no corpo da mulher procuram impedir a ovulação. Mas às vezes a ovulação produz-se, apesar da pílula…

O que ocorre nesses casos? Ocorre que outros mecanismos do mesmo produto anticoncepcional impedem que o embrião (poderíamos chamá-lo com mais propriedade “o filho”) possa aninhar-se no útero, possa continuar o seu caminho na vida.

Deste modo, muitos produtos assim chamados anticoncepcionais têm um efeito abortivo que a mãe não chega a descobrir. Segundo alguns estudos, 100 mulheres que usassem algumas formas de anti-concepção hormonal 15 anos seguidos, poderiam ter 130 abortos ocultos. Uma percentagem que fala por si mesmo da seriedade de algo que está a ocorrer no meio de um silêncio quase absoluto.

A isto teremos de acrescentar a confusão que existe sobre o “abortamento” destes e de outros produtos (como a pílula do dia seguinte), confusão devida a vários factores, dois deles de grande peso. O primeiro factor consiste no interesse de algumas empresas farmacêuticas em continuarem a vender os seus produtos, considerados exclusivamente como anticoncepcionais e não como abortivos. Se se dissesse claramente que existe um possível efeito abortivo desses produtos, possivelmente diminuiriam as vendas, e haveria uma maior oposição social às pílulas que possam produzir um aborto “em segredo”.

O segundo factor tem a sua origem na definição que deu de aborto (ou interrupção voluntária da gravidez, como alguns lhe chamam) a Organização Mundial da Saúde (OMS, em inglês WHO). Para esta organização, que tão bem faz noutros campos da vida humana, a gravidez inicia-se só com a implantação ou a nidação do embrião dentro do útero, não com a concepção. Deste modo, só haveria aborto (interrupção da gravidez) quando um produto químico (como a RU-486) ou uma operação cirúrgica actuasse sobre o embrião implantado. Mas não haveria aborto quando se impede um embrião (um filho) de se implantar de modo adequado no útero da mulher (da sua mãe).

Esta definição criou um vazio de apoio e uma falta de assistência médica para os seres humanos nesses dias que vão desde a concepção até à implantação. Esta falta de apoio é aproveitada por quem defende a anti-concepção hormonal, também quando actua como um mecanismo “abortivo”.

É necessário descobrir o engano que se está a fomentar do uso desta definição de aborto. Estamos seguros de que se se desmascarasse um medicamento que pudesse danificar a vida de um embrião antes que ele se implantasse, ou provocasse graves lesões que deixassem a criança marcada para toda a vida, a sociedade e os mesmos cientistas sentir-se-iam na obrigação de escrever na caixa desse medicamento: “Este produto pode produzir a morte ou provocar graves danos no embrião precoce daquelas mulheres que fiquem grávidas durante os dias de uso do mesmo”. Porque não dizer o mesmo de anticoncepcionais que podem ter um efeito abortivo? Porquê esse silencio perante uma forma de eliminação de milhares de embriões (filhos) que começam a viver e que dependem da ajuda e carinho das suas mães para ver um dia a luz do sol?

Causa-nos dor a presença da fome no mundo, a exploração das crianças em algumas fábricas, a violência contra as mulheres. Apesar de tantas injustiças, temos de reconhecer que existem muitos gérmenes de bondade e de justiça no coração de milhões de seres humanos. Gérmenes de bondade que nos levam a defender a vida de todos, sem discriminações. Gérmenes de bondade que poderão fazer-nos descobrir que existe uma hecatombe silenciosa, a de milhões de embriões humanos, que são eliminados no anonimato mais absoluto pelo abuso de alguns produtos que são vendidos como se fossem somente anticoncepcionais.

Só ao descobrir esta realidade seremos capazes de pôr um travão à difusão livre daqueles produtos anticoncepcionais que possam produzir um dano para nossos filhos. Eles têm direito a desfrutar, como nós, do dom de uma vida que é o direito mais elementar que um homem e uma mulher podem oferecer para cada um dos seus filhos.

(Bosco Aguerre, www.mujernueva.org)