Talvez dizer que não

Após a experiência da clonagem de embriões humanos, Eric Cohen, da New American Foundation, e William Kristol, director do Weekly Standard e presidente do Bioethics Projects, argumentam no The Wall Street Journal (5 de Dezembro de 2001) a favor de que se proíbam essas investigações.

Os autores qualificam a experiência de “monstruosidade moral”. No entanto, acrescentam, não constituiu uma surpresa. «Há anos que estamos a progredir para baixo neste caminho, embora afastemos a vista do destino a que ele conduz».

Alguns defendem que proibir a clonagem humana equivale a deter a ciência. «É compreensível (…) que os que estão desejosos de fazer avançar a ciência e de curar doenças a qualquer preço se oponham à proibição. Mas, como escreveu o moralista Paul Ramsey, “as coisas boas que os homens fazem só podem estar completas com as coisas más que eles recusam fazer”. E a clonagem é uma dessas coisas que deveríamos recusar fazer».

Muitos estão de acordo em proibir a clonagem “reprodutiva”, mas não a terapêutica: querem criar embriões clónicos para investigar, e não implantá-los para que nasçam. Cohen e Kristol replicam: «Isso é insustentável: depois de termos começado a armazenar embriões clónicos destinados à investigação, será praticamente impossível controlar como serão usados». Nesse caso, «estaríamos a criar um género de embriões que, por lei, teriam de ser destruídos»; e como se poderia evitar o nascimento daqueles que fossem implantados ilegalmente? Com abortos forçados?

Citando Leon Kass, conselheiro do presidente Busch em bioética, os autores definem o debate sobre clonagem como “a primeira escaramuça” de uma batalha mais ampla. Está em jogo, afirma Kass, se vamos “colocar a própria natureza humana sobre a mesa de operações, para a alterar, para a melhorar e redesenhar completamente”; isto é, se vamos adoptar a eugenia.

Já C. S. Lewis tinha advertido em “A abolição do homem”, recordam Cohen e Kristol, que “todo o novo poder conquistado pelo homem é também um poder sobre o homem”. Por isso, concluem os autores, «para deter a desumanização do homem, e a criação de um mundo post-humano de bebés de desenho, quimeras de homem e animal e “morte por compaixão” dos deficientes, talvez tenhamos de omitir algumas investigações. Talvez tenhamos de dizer que não a certas experiências antes de que elas comecem. Proibir a clonagem humana é uma oportunidade ideal para reafirmar o controlo democrático da ciência e voltar a ligar o progresso tecnológico com a dignidade e a responsabilidade humanas».

(Aceprensa, 26 de Dezembro de 2001)