Coisificados

Enquanto caminhávamos despreocupadamente pelo caminho de atribuirmos às coisas o valor que apenas devíamos atribuir às pessoas – esperando que a posse delas pudesse satisfazer as ânsias de felicidade dos nossos corações – fomos dando, simultaneamente, passos firmes na direcção de nos considerarmos a nós mesmos como coisas.

Começámos por utilizar outras pessoas para os nossos interesses. Não, inicialmente, de forma a lesar demasiado essas pessoas – deixávamos os assassinatos e as injustiças horrorosas para os malfeitores e outras pessoas sem escrúpulos. Aos poucos, porém, fomos deixando que certa mentalidade coisificante fosse crescendo em nós e nas nossas estruturas sociais.

À custa de não analisarmos com profundidade essa forma de pensar, à custa de sermos superficiais e frívolos, à custa de omitirmos aquilo que devíamos ter feito, deixámos que ela se colasse por todo o lado.

E o mais preocupante é que agora ela não está apenas fora de nós.

Estamos, também nós, inclinados a achar razoável o assassinato da criança por nascer quando o seu nascimento, por qualquer razão, se nos torna incómodo. Não vemos nela uma pessoa como nós, mas uma coisa. E, por isso, admitimos fazer dela o que seria natural fazer com uma coisa: usá-la ou eliminá-la.

E já temos o caminho aberto para a generalização da eutanásia, que consiste em tratar os idosos e doentes graves como se fossem objectos gastos: deitá-los para o lixo por já não terem utilidade e se terem tornado incómodos.

Temos permitido que embriões humanos – pequenos como nós já fomos – sejam utilizados em experiências que até há poucos anos se faziam em… ratos.

E temos permitido que se esteja a avançar com a intenção da clonagem, o que significa trazer à existência seres humanos com o objectivo único de fornecerem células que serão utilizadas para nos curar de certas doenças. Condicionando a sua existência, tal como em todos es exemplos anteriores, à utilidade que possam ter para nós.

Como se fossem ratos, como se fossem coisas.

Não o dizemos deste modo, mas é essa a realidade. Arquitectamos mil razões, desenhamos argumentos, pintamos palavras antigas com outras cores… mas não há forma de alterar a verdade das coisas. Nem sequer perante nós mesmos, pois sabemos muito bem, no fundo de nós, que não passamos de mentirosos, ainda que usemos palavras aveludadas.

Houve, no entanto, algo de que não nos lembrámos ao longo deste desenfreado caminho: é que ao coisificarmos outros seres humanos, nos coisificamos a nós mesmos. Se virmos os outros como coisas, se deixarmos que essa mentalidade sedimente, nada impedirá que os outros nos vejam a nós… como coisas. Pois somos tão humanos, e não mais, do que esses embriões, do que esses idosos, do que esses doentes.

Sendo assim, bem poderemos ir para a rua gritar pelos nossos direitos… Ninguém nos ouvirá! Se não tivermos utilidade para os outros, quem se preocupará com aquilo que somos? Teremos tantos direitos como os tais embriões, como os tais doentes, como os tais idosos… De resto, se não podemos voltar a ser embriões, viremos a ser muito possivelmente idosos e doentes.

Basta ouvirmos um noticiário para tomarmos conhecimento de como cada vez mais há pessoas na rua, em grandes grupos, a clamar pelos seus direitos. Mas tenho a certeza de que a única forma de conseguirmos que nos olhem como pessoas consiste em olharmos como pessoas aqueles que já começaram a ser tratados como coisas; em defendermos aqueles que não se podem defender e que já quase ninguém defende.

Essa é a única solução. Respeitar a vida humana qualquer que seja o modo de ela se encontrar concretizada. O assunto não admite excepções. Se admitirmos avaliar os mais fracos dos humanos de acordo com critérios de utilidade e conveniência, um dia ninguém poderá ficar de fora.

É preciso que façamos qualquer coisa. E sem demora.

Paulo Geraldo