Está sol, amiga! Mete a doença na gaveta, arruma-a ao pé dos relatórios clínicos, da TAC que te tirou o sono, das análises, dos RX, das ECO. Arruma-a cuidadosamente; era bom até que a esquecesses, que não te lembrasses mais de em que gaveta a tinhas metido, como acontece às vezes com os objectos que não queremos perder e que, mesmo com tanta preocupação, perdemos mesmo.

É que está sol, amiga, e enquanto lês e relês os relatórios médicos, e te engustias pelo futuro, esta manhã linda acaba, passa, e nem vais por ela porque não a viveste.

Está sol, querida, está sol! Lembras-te de quando éramos miúdas e estávamos contentes por nada de especial, apenas porque estava sol e podíamos ir até ao jardim brincar? Lembras-te de quando ninguém nos podia levar à rua e apenas se abriam, de par em par, as janelas da “casa de costura” e ficávamos a ver as pessoas a passar na rua, a olhar para o céu, para as copas das árvores, para os pássaros?

Lembras-te de lancharmos à janela, do sabor diferente das tangerinas comidas ao sol, do perfume das tangerinas a infiltrar-se nas nossas mãos e a passar para a casa toda?

Lembras-te de pormos o cavalinho de madeira à janela, connosco, para também apanhar sol e fingirmos que lhe dávamos cenouras? Era um faz-de-conta que nos fazia bem, porque estávamos felizes por nada, só porque estava sol e nós estávamos ali, as duas, mais o cavalinho de madeira…

Está sol, amiga. Que importa, neste momento, que os relatórios e os médicos te digam que “o dia” está próximo? Não cabe ao homem saber a hora… cabe viver e estar atento. Em que pões a tua atenção? Não te fixes só no real visível, porque com certeza já percebeste que a imaginação nos pode levar muito longe e que era por isso que gostávamos tanto do cavalinho de madeira. Ainda podes montar nele e visitar um Real mais verdadeiro do que todas as verdades do teu relatório médico.

Não te posso dar a minha Confiança, não te posso dar a minha Fé, não te posso dar a minha Esperança. Só te queria fazer lembrar aquela alegria com que recebíamos uma manhã de sol

Que te dói hoje? Dizes-me que, fisicamente, quase nada. Então, abre as mãos e recebe o calor do sol, abre os olhos e recebe a luz, abre os ouvidos e recebe o som. E vive, agora, amiga. Amanhã pode ser que chova, que faça frio, que faça vento. Pode acontecer que não possas ir à rua e que nem sequer o tempo te permita abrir as janelas. Agora há sol. Vai até à rua ou põe-te à janela. E não me digas que não tens dinheiro para sair. Que dinheiro tínhamos nós aos seis anos? Ir à rua é só sair.

Dá-te ao luxo de seres pequenina e disponível para o contentamento.

Estás viva, não estás? Então arruma lá a tua doença na gaveta e anda brincar. Se puderes andar, vem a pé. Se não, vem no cavalinho de madeira. Está sol!

Fernanda Ruas

(in Jornal de Almada, 7 de Junho de 2002)

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