Eutanásia: um tetraplágico

“Com certa mentalidade holandesa – a daqueles que tornaram possível a legalização da eutanásia – eu já estaria morto, sem dúvida nenhuma. Ou, antes, ter-me-iam deixado morrer. Porque existiam os meios técnicos e humanos para empregar numa situação como a minha.

Teria sido, é evidente, mais simples, mais económico e, sobretudo, muito mais cómodo para as outras pessoas deixarem-me morrer.

(…)Felizmente para mim, no ambiente hospitalar e familiar em que vivo considera-se que é preciso fazer por um doente tudo aquilo que for razoável para o manter com vida. Possivelmente, a grande carência que possuem aqueles que perdem o entusiasmo de viver é a de companhia, a de solidariedade em momentos de angústia e medo, de falta de sentido de uma existência – a própria – que, erradamente, julgam ser inútil sem ninguém que lhes faça ver o incalculável valor e a transcendência de ser pessoa.

(…) Com a recente legalização da eutanásia na Holanda, apenas se deu estatuto jurídico a uma prática já conhecida e bastante difundida. Os partidários da eutanásia sentir-se-ão livres para a exercer mais amplamente segundo o seu critério. De facto, na maioria dos casos as condições para a legalidade são muito opináveis e arbitrárias, mesmo sendo vários os médicos que opinam o mesmo: se um doente é terminal, incurável, ou a sua dor é insuportável. Para não falar do impossível que é provar, depois de o paciente ter morrido, a liberdade que tinha. Não se pode conceder o direito a tirar a vida.

(…) A pretensa liberdade individual com a qual se quer garantir a vontade do doente não é, nem de perto, um valor que deva ser salvaguardado em qualquer pessoa. Se assim fosse, teríamos de tolerar a conduta de todos os delinquentes, desde que actuassem livremente. Convirá, antes, notar principalmente o conteúdo concreto daquilo que se permite ou se proíbe com a norma legal. A legislação em geral pretende ajustar as condutas individuais, por vezes rebeldes, a uns critérios objectivamente rectos para o indivíduo e para a sociedade. E como aquilo que a eutanásia faz é matar uma pessoa, não parece que se deva consentir isso, nem a pedido do próprio interessado. Embora aquele que vai morrer peça a sua morte, alguém o mata e não se pode conceder o direito a tirar a vida.

(…) Não somos coisas que se deitam fora quando já não interessam, como fazemos com um automóvel que não compensa manter porque produz mais gastos do que serviços. O homem está a renunciar à sua própria dignidade e grandeza quando se coisifica a si mesmo: está a auto-converter-se, através da legislação, num produto, em algo que se faz quando interessa e se desfaz quando já não interessa. Muito diferente disso é ajudar verdadeiramente a morrer, e não matar, procurando todo o bem possível para o indivíduo nos seus últimos momentos: tratando a sua dor, a sua solidão, o seu abatimento, etc.. Certamente, é algo que dá mais trabalho do que uma injecção letal, mas é mais digno e honroso para a pessoa.

(…) Naturalmente, cada vez pesam mais os motivos económicos – embora não seja apenas isso – pois, como foi dito mais de uma vez, algumas pessoas já não produzem e acabam por ser mais baratas mortas do que vivas. Confiemos em que nunca nos valorizem com critérios de mera utilidade”

(Luis de Moya, sacerdote tetraplégico, numas jornadas dedicadas ao voluntariado com pessoas mais velhas, organizado pelo Vice-reitorado de Alunos da Universidade de Navarra. Coordena um sítio muito interessante, acerca de eutanásia, chamado Muerte Digna)