Hei-de morrer quando chegar a minha hora

Jorge: um testemunho na primeira pessoa

O filme “Mar Adentro” conta a história real de um tetraplégico, de seu nome Ramón Sampedro, que se bateu até ao fim pelo direito à eutanásia. Mas nem todos os tetraplégicos querem morrer. Veja-se o caso do Jorge, por exemplo. O Jorge ficou tetraplégico no dia 15 de Julho de 2002, com apenas 30 anos de idade, num acidente de trabalho. Serralheiro de profissão, o Jorge estava a realizar obras num centro comercial em Matosinhos quando caiu de uma altura de cerca de dois metros. Ficou inconsciente por breves instantes. Ao acordar, percebeu que a queda transformaria a sua vida para sempre. “Quando abri os olhos, estava deitado no chão. E não conseguia mexer-me. Chamaram os bombeiros e fui para o Hospital de S. João, onde fui operado”, recorda, já sem a mágoa de outros tempos. Para este homem, o tempo tem ajudado a sarar as feridas da alma. A tetraplagia, essa, não tem remédio que lhe valha.

O Jorge não se apercebeu logo do seu estado, não entendeu ou não quis entender que era irreversível. Já no Hospital de Pedro Hispano, em Matosinhos, para onde foi entretanto transferido, passou as maiores provações, sentiu-se revoltado, fez a pergunta que todos fazem numa situação destas: “Porquê eu?”.

Os primeiros seis meses foram os mais complicados. “Custa muito, no início. Eu chorava muito”, confessa. Segundo o Jorge, a ajuda dos seus familiares (incluindo o pai, entretanto falecido) foi fundamental. Mas o que mais o incentivou, diz, foi a ida para um hospital, em Toledo, que recebe paraplégicos e tetraplégicos de todo o mundo. “Vi como era a realidade! Havia pessoas em pior situação do que eu”, explica. E, no entanto, a situação do Jorge não é das melhores. Quando caiu, seccionou a medula a nível de C4, o que faz com que não respire autonomamente. Foi submetido a uma traqueostomia e, hoje, depende por completo de um ventilador.

Durante os meses que passou em Toledo, o Jorge voltou a sentir-se em casa e foi encontrar as forças que lhe faltavam na amizade. “Havia muito convívio. Era como se fosse uma família!”, lembra, com saudades dos seus companheiros de infortúnio, com quem ainda se comunica pelo telefone, do seu quarto no Hospital de Pedro Hispano, para onde regressou. Recebe mais chamadas do que faz. Brinca, a propósito, dizendo que passar horas ao telefone é coisas de mulheres.

O Jorge conta que, nesse hospital espanhol, avançou muito. “Deram-me uma cadeira de rodas que me dá independência para andar de um lado para o outro”, explica, a sorrir. Foi uma grande conquista!

As saudades são tantas que o Jorge não se importava de regressar a Toledo: “Por mim, tinha ficado lá! Tinha mais condições. Tinha um jardim… Era porreiro”.

Em matéria de amor, o Jorge prefere não falar muito. Diz que não tem namorada, mas não enjeita a possibilidade de vir a ler, no futuro. “Se calhar…”, admite, visivelmente bem-disposto.

O Jorge afirma que não houve nenhum momento em particular em que tivesse aceite que era tetraplégico. “Foi um processo gradual. Fui-me mentalizando de que iria ficar assim”, conta. Hoje em dia, não pensa muito no que lhe aconteceu. “Vou vivendo”, afirma.

Também não pensa que tenha sido o destino que o atirou para uma cadeira de rodas. “O meu destino não era cair e ficar tetraplégico. O destino das pessoas não é estarem deitadas numa cama dos cuidados intensivos…”, diz.

Quando lhe perguntamos o que pensa sobre a eutanásia e se algum dia pensou em morrer, responde-nos: “Por que é que eu havia de morrer? Hei-de morrer quando chegar a minha hora! A vida é mesmo assim!”.

O Jorge não quer morrer. Quer, apenas, que o tirem dos cuidados intensivos do hospital e o levem para um local adequado à sua nova condição. Em Espanha ou em Portugal, é-lhe indiferente. Mas não lhe consta que o nosso país tenha, neste momento, algum espaço que o queira ou possa acolher. Por isso, mantém-se nos Cuidados Intensivos do Hospital de Pedro Hispano. Até ver…

Para sua casa, infelizmente, não pode ir porque o seu quarto fica num primeiro andar. Quando pode, vai passar umas horas à casa da irmã, que fica situada num rés-do-chão. De todo o modo, se fosse para casa, o Jorge precisaria de alguém que estivesse ao seu lado em permanência.

O Jorge não pede para morrer. Quer algo bem mais simples: nada mais, nada menos do que um computador. Durante seis meses, a Universidade de Trás-os-Montes emprestou-lhe um, mas teve de o levar embora. Há alguns meses, segundo conta, um engenheiro foi ao Hospital de Pedro Hispano mostrar-lhe um computador semelhante, mas até agora .continua à espera de que lhe digam se poderá ou não ficar com ele. Para o Jorge, seria óptimo. Poderia “entrar na Internet” para “ver as notícias”. O Jorge quer estar actualizado. Quem sabe se, um dia, não lê na Internet que o seu problema tem uma solução, ou até uma cura… No seu caso, a esperança é mesmo a última a morrer.

Cláudia Azevedo, Notícias Médicas, 16 de Março de 2005