A mulher descalça

Entrou no palco vestida com um elegante fato preto, de calça e casaco de manga comprida, sapato de salto alto e um sorriso enorme nos lábios. As mangas vazias do casaco balouçavam enquanto ela caminhava em direcção à mesa, disposta a proferir a sua singular conferência.

Sentou-se, tirou os sapatos e colocou os dois pés em cima da mesa para ajustar habilmente o microfone, que estava colocado um pouco mais acima do que ela precisava. E afirmou: “Não sou tão alta como pareço. Permitam-me ajustar isto”. A partir daquele momento, e durante as duas horas seguintes, Adriana Macías Hernández permaneceu descalça.

Adriana é uma mulher jovem, com 25 anos, que nasceu sem braços. É a mais nova de duas irmãs e uma brilhante advogada e directora de uma empresa de liderança. No comentário que se segue, referiu: “… quando temos discernimento, têm que nos dizer que somos pessoas com incapacidade, porque nós não nos damos conta disso. Pensava que todos vocês tinham passado pelo mesmo”. E continuou a contar que, quando era criança, uma tarde descobriu e depois compreendeu que era diferente da sua irmã mais velha e que tinha quatro opções: não fazer nada (tudo se faz com as mãos), ficar deprimida, ser sustentada pelo Estado ou ser feliz sem braços. A seguir, dedicou a conferência aos seus pais. Este pormenor, bem como a forma tão carinhosa como Adriana falou da sua família, e ainda o facto de nos ter apresentado a sua orgulhosa mãe no final da sua participação, levou-me a lembrar e a reflectir sobre outro testemunho idêntico, e ao mesmo tempo diferente, de mulheres tão especiais e com capacidades tão espantosas.

Em Abril de 2002, assistimos à primeira reunião com organismos da sociedade civil que se dedicam à promoção e ajuda às mulheres, organizada e coordenada pelo Instituto das Mulheres na Cidade do México, com o objectivo de criar uma agenda de acordos e compromissos para benefício das mulheres mexicanas. Logo desde o início, houve uma mulher que chamou muito a minha atenção: uma invidente de cerca de 35 anos, que representava uma destas organizações. Eu aguardava ansiosamente a sua intervenção porque pensava que seria muito importante, uma vez que sabíamos de antemão que esta participante, à semelhança de Adriana, estudara Direito e era uma profissional brilhante.

Com a ajuda de uma bengala fina, subiu para o estrado e iniciou a apresentação da sua proposta, dizendo que era cega de nascença. De forma breve, recordou algumas das principais dificuldades com que se deparam as pessoas incapacitadas que decidem seguir estudos universitários e dedicar-se a uma actividade profissional. Pouco depois desta valiosa introdução, acompanhada de outros pormenores interessantes, apresentou com cuidado e rigor a sua proposta, que consistia em legalizar o direito ao aborto em qualquer situação, partindo do chamado “aborto eugenésico”.

A proposta em si não me surpreendeu pois não era a primeira associação que promovia a legalização do aborto como uma necessidade urgente para “todas” as mulheres. O que verdadeiramente me pareceu um contra-senso foi o facto de esta proposta partir de uma mulher trabalhadora, estudiosa, corajosa, bonita, com uma grave incapacidade física com a qual tinha sabido lidar de forma extraordinária… Era como se estivesse a pedir a sua própria condenação à morte de forma retroactiva, e não tivesse a mais pequena consciência das suas próprias conquistas.

Adriana também nos falara do quanto fora incómodo usar próteses durante tantos anos para aprender a escrever, das peripécias do pai para a ensinar a nadar, da angústia de ser convidada para o seu primeiro pequeno-almoço de negócios e de não poder colocar os pés em cima da mesa para comer. Por que razão é tão diferente a perspectiva de vida destas duas licenciadas? Onde radicam as causas para que a mulher descalça tenha decidido ser feliz com a sua incapacidade, enquanto a mulher da bengala pede a morte antecipada das pessoas não nascidas com problemas congénitos? Não tiveram ambas a mesma oportunidade de viver? Ocorre-me pensar que uma primeira explicação poderia residir no amor e, consequentemente, na aceitação que estas mulheres receberam no seio das suas próprias famílias, especialmente por parte dos seus pais e irmãos. Sentirmo-nos e sabermo-nos uma pessoa profundamente amada e aceite é uma fundamentação antropológica natural que permite um desenvolvimento humano pleno, harmonioso e equitativo na diferença, como é o caso das nossas licenciadas. É para mim muito claro que a filosofia e a atitude de Adriana Macías são exemplares, e que o bom-senso e a contribuição amorosa dos seus pais e da sua irmã mais velha constituíram um elemento insubstituível para o conseguir, e que eles jamais se arrependerão de terem agido desta forma e muito menos do facto de Adriana ter nascido. Isto vem provar mais uma vez que a família é o núcleo social mais importante para aceitar, formar e educar as pessoas.

Quase para finalizar a sua conferência, fora tal a elasticidade dos dedos dos pés de Adriana, a naturalidade dos seus movimentos e a contundência da sua mensagem que eu já não via uns pés, mas sim umas mãos autênticas mas com dedos mais curtos. A mulher descalça dissera-nos: “Existem anjos neste planeta iguais a nós, ou seja, tão humanos como nós, que são capazes de parar para ajudar os outros”. Naquela noite, tivemos um anjo diante de nós, um anjo totalmente feminino que, embora sem braços, nos abraçou a todos com as asas fortes e enormes de um espírito livre e apaixonado pela vida.

(Por: Luz María Villalpando, Colaboradora de Mujer Nueva; tradução para a Aldeia de Lara Almeida Dias)