Parece mas não é

Durante todos estes anos, assisti a muitas coisas maravilhosas. Pelas minhas mãos de educador e diante dos meus olhos atentos, passaram muitas pessoas e muitas famílias. Em muitas ocasiões me senti encantado com aquilo que presenciava. Muito mais do que perante uma paisagem esplêndida, uma bela música ou um poema luminoso.

O mais espantoso de tudo, porém, foi constatar tantas e tantas vezes o incrível amor que une a mãe aos seus filhos. Um amor preparado para tudo, capaz de ultrapassar todos os obstáculos. Um nó indestrutível. Uma força imparável. Um mar de aconchego e confiança.

O amor verdadeiro é belo em todas as suas formas, mas esta é muito especial. E aquilo que mais profundamente marca o amor de uma mãe é que ele é incondicional.

No entanto, a pouco e pouco, quase sem o notar, fui verificando algo que me magoou. Fui encontrando, cada com maior frequência, filhos que não se sentiam ligados à mãe de um modo compatível com um amor tão grande. Revoltados com ela, muitas vezes. Ansiosos por se verem longe dela assim que isso fosse possível. Filhos que, mesmo sem odiarem a mãe, ao irem para longe, com a vida, se despediam dela apenas como quem diz adeus a uma paisagem que ficou atrás e que talvez algum dia se tenha gosto em rever.

Assustei-me e não entendi imediatamente.

Cheguei a supor, sem razão, que teriam existido erros educativos no passado dessas famílias. Ao educar, muitas vezes uma mãe não acerta, porque tem geralmente um coração pouco capaz ver sofrer um filho, de ser exigente. E a exigência é muitas vezes necessária. Mas os erros educativos que possam acontecer acabam por não deixar marcas, porque o amor, esse amor, supera tudo o resto. Um filho, depois de crescer, quando olha para trás, acha que tudo foi bem feito, e vê claramente que se algo foi mal feito não teve importância. As ondas não salpicam as estrelas.

A relação com a mãe não fica ferida por isso. Há outra explicação para o facto assustador que antes referi.

É que a contracepção retira ao amor da mãe pelo seu filho a incondicionalidade: aquilo que mais propriamente devia constituir esse amor.

E muitas mulheres praticam a contracepção.

O amor incondicional é aquele que diz: “Vem se quiseres, vem quando quiseres, vem sejas como fores, vem faças o que fizeres. Estou aqui para te receber. Existirei para ti. Derramarei tudo o que há de bom em mim sobre ti, para te construir”.

A contracepção, a forma mais utilizada para realizar aquilo a que chamam desastradamente “planeamento familiar”, não é compatível com este tipo de amor. Porque coloca condições: “Virás quando eu quiser, se me der jeito, quando for possível. Talvez mais tarde. Já há o teu irmão…”. Não acolhe: escolhe.

Em vez de dizer “Existirei para ti”, diz qualquer coisa que se parece muito a um “Existirás para mim”. A criança pode mesmo ser desejada como se deseja uma coisa, com uma qualquer finalidade: salvar uma relação, preencher um vazio, satisfazer uma curiosidade…

Se encarares assim os filhos, com egoísmo, eles poderão vir a desprezar-te ou a odiar-te.

A flor morre para que surja o fruto. Também a mãe de algum modo deve morrer para que venham os filhos e se façam homens. É um morrer sem morte: um morrer para si mesma – para os seus gostos, para o seu descanso, para os seus caprichos – transformado num viver para os filhos, concretizado em sofrimentos que vão desde as dores do parto a todos os outros que a ele se seguem.

A mulher que admite usar contraceptivos torna-se a si mesma incapaz de ser plenamente mãe. Destrói em si a capacidade de amar como mãe. Pode amar um filho, se chegar a tê-lo, mas não já dessa forma. Esse pode vir a ser, também, um belo amor, mas… já não é a mesma coisa!

Pode parecer, mas não é.

(Paulo Geraldo)