Temos ideologia

A nós, os que vivemos quase toda a vida como testemunhas do enfrentamento ideológico entre o comunismo e o capitalismo, entre a antiga URSS e os USA, pode parecer-nos que, uma vez morto o marxismo, as ideologias já não existem ou, pelo menos, que já não determinam o debate político.

Esta apreciação está errada, pois hoje existe um debate ideológico na cena política tão virulento como o histórico do marxismo. As ideologias que hoje estão na liça são, de facto, duas antroplogias antagónicas e imcompatíveis entre si: por um lado, aquela visão do homem que mergulha as suas raízes – com maior ou menor coerência – em Jerusalém, Roma e Atenas: aquilo a que poderíamos chamar humanismo cristão; e, por outro, a filosofia do género.

Todos os debates actuais sobre a família, o casamento, o direito à vida e questões semelhantes são debates provocados pelo assalto da filosofia do género contra a fortaleza construída pela história do mundo ocidental de inspiração cristã para proteger o homem e a família como algo valioso em si mesmo.

A filosofia do género é uma antropologia de raízes marxistas e freudianas que, inspirada num feroz materialismo pansexualista, pretende libertar o homem e a mulher de qualquer exercício da sexualidade que leve consigo responsabilidade.

Segundo essa filosofia, o sexo deve ser reconstruído como género, ou seja: cada pessoa escolherá livremente se deseja ser homem ou mulher, hetero ou homo ou transexual. Esta é a verdadeira liberdade.

Por isso, a filosofia do género tem como inimigos fundamentais o casamento e a maternidade, pois implicam um exercício da responsabilidade.

Nada tem de estranho que a agenda política da filosofia do género passe por equiparar homossexualidade com casamento, introduzir o género nas leis (como as de violência de género ou as de identidade de género), rebaixar o casamento a um assunto meramente privado através do divórcio fácil, facilitar a luta contra a vida mediante a promoção do aborto, impulsionar as técnicas de reprodução assistida para tirar a reprodução do contexto homem-mulher, etc.

E, para terminar, a filosofia do género, como qualquer ideologia que se tenta impor, procura estar presente nas escolas.

Benigno Blanco,

Vice-presidente do Foro Espanhol da Família

in Hacer Familia, nº 143